Premiê Israel acelera viabilização de polêmico plano dos EUA, pondo em risco coalizão de governo e segurança de Israel em novo pico da pandemia de coronavírus.

Assentamento judeu na Cisjordânia, em foto tirada por drone na segunda-feira (29) Ilan Rosenberg/Reuters O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu está disposto a avançar nesta quarta-feira (1) a proposta americana de anexação de 30% da Cisjordânia, incluindo os assentamentos israelenses e a área estratégica do Vale do Jordão.

Rechaçado por palestinos, pela Liga Árabe, pela ONU e pela União Europeia, o controvertido plano levou um banho de água fria do principal parceiro do premiê no novo governo israelense -- o ministro da Defesa, Benny Gantz. Premiê suplente e peça fundamental na coalizão que pôs fim ao impasse político de mais um ano no país, o líder do partido Azul e Branco argumenta que a anexação unilateral não é prioridade no momento.

Israel passou bem pela pandemia, mas atualmente enfrenta um novo pico da doença e ainda amarga os efeitos da primeira onda na economia.

O desemprego, por exemplo, aumentou de 3,4% para 18%. “O dia 1 de julho não é uma data sagrada.

O que não está conectado ao coronavírus vai esperar”, alegou Gantz.

Foi o bastante para irritar o premiê e demonstrar que a coalizão, que alternará o poder entre os dois líderes, será complexa: “Este assunto não depende do Azul e Branco”, rebateu, ignorando as ponderações de seu ministro da Defesa e principal rival nas eleições passadas. Netanyahu tem pressa para acelerar a soberania israelense sobre os territórios conquistados na Guerra de 1967.

Até agora, seus antecessores evitaram entrar nessa seara de forma tão contundente, para não desestabilizar ainda mais a região. O premiê está ciente de que a anexação unilateral de assentamentos nos territórios palestinos reforçaria o Hamas e minaria a Autoridade Palestina.

Poria Israel sob novo ciclo de protestos e violência ou de um conflito maciço, como alertou o rei Abdullah, da Jordânia. Se cumprir a promessa eleitoral e levar o plano adiante, o primeiro-ministro arrisca arruinar o governo de coalizão.

Isso empurraria o país a novas eleições, o que, para Netanyahu, réu em três processos na Justiça por suborno, fraude e quebra de confiança, não seria um cenário ruim. Há, contudo, uma janela de oportunidade que pode estar se fechando para o premiê israelense e que justifica sua pressa.

Seu maior aliado, o presidente Donald Trump, assegurou várias concessões ao país, como a transferência da Embaixada dos EUA para Jerusalém e a anexação das Colinas do Golã.

Mas vê esvair-se as chances de reeleição em novembro. O oponente democrata na disputa pela Casa Branca, Joe Biden, já manifestou oposição à anexação unilateral da Cisjordânia, que enterra também as negociações para um acordo de paz com os palestinos e a solução de dois Estados.

E avisou que, se eleito, reverterá todas as benesses concedidas por Trump que prejudiquem a paz no Oriente Médio.

Isso, sim, é motivo de apreensão para a raposa política que comanda Israel há uma década.