Os orixás se nutrem de música.” Quem afirma é Gilberto Gil, autoridade nos dois temas. O cantor e compositor baiano faz parte da rica seleção de artistas reunidos em Obatalá- Uma homenagem a Mãe Carmem.
 
O álbum, lançado nesta quarta-feira (4), em CD e nas plataformas digitais, além de celebrar a vida da atual Iyalorixá do Terreiro do Gantois, de Salvador, propõe a preservação da cultura sagrada em torno do candomblé por meio de sua musicalidade, como um canto de paz e tolerância em tempos conturbados.

Gil define o álbum como um “projeto salvaguarda”. O músico conversou com o Estado de Minas no último sábado (31), quando foi a atração principal do Festival Sarará, na Esplanada do Mineirão. Na quinta-feira anterior (29), ele acompanhou no Palácio das Artes a apresentação da nova coreografia do Grupo CorpoGil, cuja trilha sonora foi composta por ele.
 
Sobre o álbum, ele diz: “A ideia veio do Gantois, através de sua chefe, Mãe Carmem, com objetivo de que a música, que costuma ser restrita ao ambiente sagrado do terreiro, tivesse uma divulgação ampla, para os mais jovens e para a população em geral, pensando na preservação dessas canções, com seus tambores, que permitem que seus adeptos dancem, cantem e meditem”.

A base das 17 canções é do Grupo Ofá, formado por Iuri Passos, Yomar Asogbá e Luciana Baraúna, todos filhos do Gantois, que recebeu um time de peso para as gravações. Além de Gil, que participa de quatro faixas, estão presentes Marisa Monte, Daniela Mercury, Gal Costa, Carlinhos Brown, Ivete Sangalo, Lazzo Matumbi, Margareth Menezes, Nelson Rufino, Jorge Ben Jor, Alcione e Zeca Pagodinho.
 
Em duetos ou em solo com o Ofá, cada convidado dedica sua conhecida voz a um orixá específico. Quase todas as músicas são cantadas no idioma yorubá, exceção para A força do Gantois, com Nelson Rufino e Zeca Pagodinho, e Carmen, interpretada por Gil e Gal Costa.
 
“Convidei artistas que têm afinidade, simpatia, respeito, não necessariamente frequentadores ou filhos de santos, mas que tivessem a sensibilidade para preservar essa cultura do candomblé e passar para novas gerações, sobretudo, a transmissão da paz e do respeito. É um disco sobre respeito”, afirma a diretora-geral do projeto, Flora Gil.
 
Flora destaca que houve um cuidado especial na preparação dos artistas em relação aos fonemas e acentuação das palavras, com auxílio de professores e especialistas em yorubá. No encarte, todas as letras aparecem em sua versão original e ainda traduzidas para o português.
Aos 90 anos, Mãe Carmem, filha de Mãe Menininha, participa não apenas cantando duas músicas para o orixá oxalá, mas especialmente como inspiração principal para o restante dos envolvidos.
 
“O mais importante é saber que temos um registro que vai perpetuar a verdade do candomblé, para que, daqui a 50 anos, todos saibam como se cantava para oxossi. Do jeito que o mundo está, é uma forma de preservação da cultura. A intolerância religiosa, infelizmente, está muito forte, no mundo todo. Não só ao candomblé, mas aos muçulmanos e outras religiões, que têm sofrido ataques terríveis. Nosso registro vem exatamente como uma transmissão de fé, paz, respeito e responsabilidade daquilo que queremos encaminhar”, diz Flora Gil.

Com sua voz posta a serviço das canções e de palavras carregadas de serenidade, Gilberto Gil acredita na música como instrumento decisivo na construção de uma sociedade mais tolerante e pacífica.
 
“Os brasileiros, em sua grande maioria, reconhecem a importância da África para a nossa cultura, seja pela religião, pela música ou pelo canto, embora haja alguns resíduos de intolerância. Historicamente, sempre houve uma resistência por parte de alguns setores católicos, mas não me recordo de tempos em que grupos se rebelassem dessa forma, a ponto de vandalizar terreiros. Mas, felizmente, há também o reconhecimento, e a música tem enorme importância para construir essa ponte de respeito e entediamento para todos os lugares”, afirma.